A História de Dona Maria
Mais um dia. Mais um ônibus. Lembro que já reclamei da frieza desse meio de transporte tão comum (entre pobres como eu) em textos anteriores. Dezenas de pessoas se acotovelando e ninguém diz um olá.
Esse seria só mais um dia.
Eu lia sentado num canto alheio à paisagem e aos meus semelhantes. Foi quando saindo do nada, uma voz se dirigia a alguém.
- Menino.
Não é comigo, Far From the Madding Crowd tá mais interessante do que ouvir conversas alheias.
Eis que eu ouço o chamado de novo. Dessa vez, sei que veio do meu lado esquerdo. Olho para o lado, curiosidade é foda.
- Menino, com a sua licença. Você não devia ler em um veículo em movimento.
OK. Essa frase tão educadada, ainda que baseada em um chavão médico-oftalmológico, chamou minha atenção. Desconfio que pouco adiantaria ignorar, então me virei para ver quem se dirigia à mim. Reconheço também que gostei da parte de "veículo em movimento".
Ouvi fingindo prestar a maior atenção a todo o discurso de "mal à vista" (será que eu posso conseguir um mal à prazo?). Imaginei, seu eu concordo, acaba mais rápido.
Problema é que: se eu concordo o discurso acaba, porém acabando não posso voltar a ler pois concordei que isso me faria mal.
Acabou rápido como previsto. Fechei o livro e me preparei pra cochilar. Isso não faz mal, né? Fiquei tentado a perguntar, temi ser tido como irônico, entretando.
Dona Maria (passarei a chamá-la assim não ironicamente, mas como forma de homenagem. É o nome mais comum entre senhoras, sendo minha própria velhinha uma Maria), por ter me achado disposto a ouvir suas preocupações com a minha visão, entendeu que havia achado terreno fértil em meus ouvidos para emendar um diálogo de viagem.
Digo finalizando que Dona Maria ganhou dua coisas nesse dia; um ouvido pronto pra acomodar sua simpática história de vida e (muito mais importante) esse post contando a história de uma velhinha simpática.
Siga os fatos como me foram apresentados.
- Dona Maria nasceu em Minas. Mudou-se para o Rio ainda adolescente (16 anos). Por isso, Dona Maria se sente mais carioca do que mineira.
- Dona Maria deixou os filhos e o marido (de quem se separou) e veio para o Espírito Santo.
- Em aqui chegando, conseguiu emprego em apenas 15 dias. Foi por isso que ela veio pra cá. E por isso continua aqui, apesar da saudade.
- Dona Maria é uma estudande, apesar da idade. Cursa a 6ª série do Supletivo. Escola noturna, avisa, pois trabalha de dia.
- Quando soube que falava com um universitário, dona Maria disse que também tinha uma filha universitária (no Rio) e manifestou desejo de um dia também cursar um curso superior. Será que eu consigo, pergunta ela?
- O celular da dona Maria toca mp3. Barrou o meu.
Bom, dona Maria atrapalhou minha leitura. Ao descer me deu um tchau e me desejou um bom dia.
Dona Maria, tá faltando gente simples no mundo.
O século 21 não viu a revolução tecnológica que a ficção nos prometeu. O século 21 apenas transformou em andróides pessoas de carne e osso.
Pelo visto, apesar do celular com mp3, o sacana ainda não contaminou de todo a Dona maria.

1 Comments:
Porra, ônibus e mp3s no mesmo texto?
Você está me plagiando seu pilantra!
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